terça-feira, 29 de maio de 2012

À MERCÊ ...

segurança é mesmo uma droga,
uma droga que entorpece o entendimento,
mascara a realidade,
tira tudo da sua devida proporção
compromente o raciocínio e, consequentemente,
as decisões tomadas ...

segurança é uma utopia.
nunca entenderei como alguém pode se sentir seguro do que quer que seja
se a vida é uma roda, insegura por natureza
A vida muda em um segundo
nada "é" ... tudo "está"
e pode deixar de "estar" em um momento ...
como dizia o poeta: "a hora do sim é o descuido do não" ...

segurança não existe ...
você pode até se sentir seguro,
mas nunca estará seguro de verdade....

mas... é tanta gente tão segura ao meu lado,
olhos e ouvidos fechados
que fico pensando:
parece que só eu tenho medo, sou fraca, só eu ...
parece que só eu já perdi algo de um momento pro outro ...
deve ser bom ser assim
tão seguro, tão cego e tão surdo ...

será que se eu fechar os olhos e
me cobrir com o cobertor
o monstro vai deixar de me ver ?
                                  -silvia helena aquino-

FEBRE

que realidade é a verdadeira ?
em que multiverso eu vivo hoje ?

acordei ontem a noite e descobri, desapontada,
que o lugar onde estava não existia ...
... e tenho ido a ele a tempos !!
parecia tão real e descubro que não faz parte desse meu "agora"
é parte do outro "agora"
em quantas dimensões pode-se viver simultaneamente ?
quantas experiencias, sensações se pode ter, concomitantemente ?
quantos amores ?

posso amar a todos "vocês" ?
ou ... todos os "eles" ?
quantos "vocês" são voce, de uma outra forma,
sob uma outra leitura ?

sinto falta de alguns dos "ele",
já de outros "eles" eu tenho raiva ...

como amar a um "você" inteiro ?

deliro. tenho febre .
acho que estou doente
já a muito tempo,
e sem possibilidade de cura ...
                                       -silvia helena aquino-

DECLÍNIO

odeio quando tenho razão ...
sabia que nao ia durar,
quantas vezes te disse isso ?
mas voce é teimoso, insistiu ...

o dever sempre vence o desejo ...
o que se deseja é fraco frente ao que se precisa ...

tanto desperdício de tempo e energia
pra que ?  pra nada ...
tanto esforço, tanta atenção aos detalhes
e, de repente, deixa de existir
como uma bolha de sabão ...
bonita, lúdica e ... frágil

detesto estar certa nessas coisas !
podia errar só dessa vez !
torcia tanto !
mas não ...

implacavel a realidade desaba sobre nós ...
os olhos velados se abrem
e surge essa verdade definitiva e irrecorrível
acabou.
a magia, o sonho, a beleza, a leveza
acabou.
acordamos.
nós nos tornamos comuns,
voltamos a ser adultos,
iguais a todo o resto,
dentro de um mundinho sem graça
presos a realidade, ao dia-a-dia,
o cotidiano e seus afazeres
não há mais romance, não há mais mistério,
não há mais a emoção da caçada ...
só há a vida comum

sentença de morte.
falta de luz e calor
a flor morre, qualquer flor morreria ...

                              -silvia helena aquino-